14 de abril de 2012

Passarinho sem asas

Eu relutei em falar sobre isso aqui, algo tão pessoal em um espaço que, definitivamente, não foi destinado a isso. Mas hoje, as palavras  (os sentimentos, a saudade...) escorreram pelos dedos e por isso, peço permissão às minhas leitoras para usar este espaço para outros fins e acabar com o silêncio em que este blog se encontra falando de quem este semana me deixou um enorme vazio...



Meu avô era um passarinho. Voava alto e, diferente dos curiós que criava, não nasceu para viver engaiolado. Eis a ironia.

Meu avô era um pavão: vaidoso, sempre cheiroso, engomado, de unhas, cabelos, barba e vincos de calça de linho impecáveis. Meu avô era um joão de barro: construtor, com sua coleção de ferramentas, e trabalhador. Acordava de madrugada para ir ao cais do porto e, se preciso, virava noites. Teve uma vida dura, suada para garantir um mínimo de dignidade à sua família. Ainda por cima era atleta de remo, sendo inclusive campeão paraense. E tinha um quê de cuco: pontualíssimo, não admitia atrasos.

Dizem que o albatroz é um pássaro que quando escolhe um parceiro é para o resto da vida. Talvez meu avô pudesse ter sido também um albatroz. Pois, mesmo estando separado de minha saudosa avó, ainda a tratava com o carinho, a consideração e pelo mesmo apelido de quando eram casados. Fazia tudo pela Nanazinha e morreu chamando-a de 'minha esposa'. E assim construiu seu ninho, polvilhado de regras, valores e suor, para criar suas pombinhas, inclusive um que não nasceu de minha avó e dele, ainda cabendo espaço para uma neta de mãe solteira. Meu avô foi meu pai-sarinho.

Não se formou, mas era sábio. Uma corujinha sempre com um livro nas mãos, palavras cruzadas, jornal, com conhecimento sobre um pouco de tudo. Um sabiá que não cantava, mas vivia sorrindo, contando piadas, 'causos'... Era tão difícil vê-lo de mau humor...Sempre foi independente, fez o que quis. Sua vontade era a lei e para ele, nunca houve medo, obstáculos ou problemas. Era acima de tudo, um homem íntegro e de extremo caráter. Uma ave em extinção.

Mas diferente de todo mundo que parece só enxergar as qualidades de quem morre, não tenho como fingir que ele não tinha defeitos. Foi muitas vezes uma pessoa egoísta e carrasca demais. Às vezes, preconceituoso. Era metido à valente, sim, arrumou muita confusão. Abusou do cigarro e do álcool. E ainda dizem que dessa água passarinho não bebe. E por tudo isso, pagou a conta que andou pendurando a vida inteira.

Mas meu avô foi uma fênix. Em 12 anos, passou por aneurisma, câncer de pulmão, câncer de pele, amputação de um dedo, internações em UTI, quimioterapias. Sempre renascendo das cinzas, sempre ressurgindo com mais força, mais garra, mais coragem e do alto de sua empáfia, nos mostrava, com orgulho, sua força e resistência. “Ainda não!”, ele dizia à morte. Mas a morte não desiste... Dá seu vôo rasante e cruel, circula como um urubu em busca de carniça e um dia, faz seu pouso fatal.

Como último teste, meu avô foi tomado por um câncer linfático que lhe tirou o braço e parte do omoplata direito, que o mutilou e lhe tomou um pouquinho a alegria de viver. Mesmo assim, ele tentou, até o final libertar-se da gaiola em que a vida lhe colocou. Mas como um passarinho sem asas pode ser feliz? Como um passarinho que sempre bateu suas asas com tanta independência e vivacidade pode viver enjaulado? Como continuar colocando suas filhas debaixo das asas quando agora só havia uma?

Eu olhava os curiós pela janela... Há muito não os via cantar. Certo dia, eles não estavam mais lá. “Vô, o senhor soltou os passarinhos, finalmente?”, perguntei. “Não, estão com meu irmão. Seu avô não consegue mais cuidar deles...”, suspirou triste. Eu me pergunto por que ele nunca os soltou... Por que apegou-se tanto a eles ali, presos. E o via exatamente como os curiós: naquele quarto, naquela poltrona, dependente de uma cadeira de rodas, cansado, aparentando muito mais que seus 79 anos. Sua respiração era um pio fino.

Meu passarinho sem asas se foi. O vôo eterno. E eu sinto muita saudade de sua risada, suas histórias, seu jeito turrão, seu chevete que me levava ao colégio, sua unha cutucando minha cabeça, sua voz me chamando de 'pixuxuca', suas bermudas surradas, seu velho pijama, suas invenções, sua xícara favorita, sua indignação com meus atrasos, seu braço esquerdo me carregando até o altar dias antes de perder o outro. Sinto saudade de meu pai. Mas ao mesmo tempo, sinto-me estranhamente feliz porque meu passarinho pode voar novamente. Imagino-o agora em liberdade, alto na imensidão de um lugar infinito, onde ninguém poderá aprisioná-lo, onde o mundo é pequeno para as suas aventuras, onde tudo o que ele quiser é possível, um lugar azul, azulzinho, onde suas asas são tão imensas que podem aninhar e proteger a todos os que ama, num abraço para caber suas filhas, seu filhos, seus netos, sua filha-neta e ainda os cachorros. Está livre, no céu, onde pertecem todos os pássaros. E cada vez que sentir saudade de casa, voará e pousará baixinho em minha janela para me acordar com seu canto de amor. Sofrimentos, eles passarão, meu avô, passarinho.





 

9 comentários:

Anônimo disse...

Nossa Luly!! Que lindo! Não pude deixar de ler e me emocionar! Que a paz de Deus esteja com vc e sua família pq agora certamente a mesma o acompanha. Rafa Raiol

lv-c disse...

Parabéns, Luly! O sentimento que se traja é o retalho, também de plebéia, que se sente e expõe ao mundo. Me emocionou bastante o texto. Esse amor, diria fora de moda, infelizmente, orgulha seu vovô e o impulsiona mais ao vôo livre! Grande beijo :)

Anônimo disse...

Luly, admiro ainda mais você flor!
Achei linda a expressão do seu sentimento, e estou certa de que trazê-la à tona lhe trará também alento ! Um beijo muito doce no seu coração ! (DANI - SJCampos/SP)

Anônimo disse...

Emocionante, muito!

Nababesca disse...

Nosssa Luanda, meus olhos ficaram cheios de lágrimas e meu coração ficou apertado. Que lindo! A mais bela de todas as declarações de amor que já li na vida. Você é maravilhosa! Que Deus conforte seu pranto.Um bjo no seu coração, Fernandinha.

Irad disse...

:(

Anônimo disse...

Eu não conheço vc...fui ytazida aki por acaso, clicando de blog em blog, procurando leitura e moda para pessoas de carne e osso, cujo cartão e salário têm sim um limite, mas o interesse por assuntos ligados à moda não!
Pois bem... por tudo isso, vez em quando passo por aqui e adoro ver você reinventando seu guardaroupa todos os dias. Mas essa introdução todinha é somente para me apresentar e dizer a você que apesar de o propósito do blog não ser esse tipo de exposição, ao dividir com os seus leitores esse tipo de sentimento, você nos eleva a um status mais interessante... o status de amigos, de confidentes e principalmente, de admiradores!
Seu texto foi muito emocionante, escrevo isso aqui com lágrimas nos olhos... mais emocionante que o texto só mesmo seu amor pelo Vô, tão apaixonada e ao mesmo tempo tão lúcida quanto aos defeitos e ao sentido dessa passagem para ele.
Fique bem Luly e continue nos brindando com suas palavras lindamente colocadas, em momentos mais felizes, é claro.
Beijo

Luly Mendonça disse...

Obrigada a todos os comentários! Tenho certeza que o tempo ameniza a dor, a saudade e ainda bem que temos as boas lembranças como companhia para sempre.
Beijos em todas

Clarice Pê disse...

Que lindo.. lembrei muito do meu avô lendo isso! =')

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