Eu relutei em falar sobre isso aqui, algo tão pessoal em um espaço que, definitivamente, não foi destinado a isso. Mas hoje, as palavras (os sentimentos, a saudade...) escorreram pelos dedos e por isso, peço permissão às minhas leitoras para usar este espaço para outros fins e acabar com o silêncio em que este blog se encontra falando de quem este semana me deixou um enorme vazio...
Meu
avô era um passarinho. Voava alto e, diferente dos curiós que
criava, não nasceu para viver engaiolado. Eis a ironia.
Meu
avô era um pavão: vaidoso, sempre cheiroso, engomado, de unhas,
cabelos, barba e vincos de calça de linho impecáveis. Meu avô era
um joão de barro: construtor, com sua coleção de ferramentas, e
trabalhador. Acordava de madrugada para ir ao cais do porto e, se
preciso, virava noites. Teve uma vida dura, suada para garantir um
mínimo de dignidade à sua família. Ainda por cima era atleta de
remo, sendo inclusive campeão paraense. E tinha um quê de cuco:
pontualíssimo, não admitia atrasos.
Dizem
que o albatroz é um pássaro que quando escolhe um parceiro é para
o resto da vida. Talvez meu avô pudesse ter sido também um albatroz. Pois, mesmo estando separado de minha saudosa avó, ainda a
tratava com o carinho, a consideração e pelo mesmo apelido de
quando eram casados. Fazia tudo pela Nanazinha e morreu chamando-a de
'minha esposa'. E assim construiu seu ninho, polvilhado de regras,
valores e suor, para criar suas pombinhas, inclusive um que não
nasceu de minha avó e dele, ainda cabendo espaço para uma neta de mãe solteira. Meu avô foi meu pai-sarinho.
Não
se formou, mas era sábio. Uma corujinha sempre com um livro nas
mãos, palavras cruzadas, jornal, com conhecimento sobre um pouco de tudo.
Um sabiá que não cantava, mas vivia sorrindo, contando piadas, 'causos'... Era tão difícil vê-lo de mau humor...Sempre foi
independente, fez o que quis. Sua vontade era a lei e para ele, nunca
houve medo, obstáculos ou problemas. Era acima de tudo, um homem íntegro e de extremo caráter. Uma ave em extinção.
Mas
diferente de todo mundo que parece só enxergar as qualidades de quem
morre, não tenho como fingir que ele não tinha defeitos. Foi muitas
vezes uma pessoa egoísta e carrasca demais. Às vezes,
preconceituoso. Era metido à valente, sim, arrumou muita confusão.
Abusou do cigarro e do álcool. E ainda dizem que dessa água
passarinho não bebe. E por tudo isso, pagou a conta que andou
pendurando a vida inteira.
Mas
meu avô foi uma fênix. Em 12 anos, passou por aneurisma, câncer de
pulmão, câncer de pele, amputação de um dedo, internações em
UTI, quimioterapias. Sempre renascendo das cinzas, sempre ressurgindo
com mais força, mais garra, mais coragem e do alto de sua empáfia,
nos mostrava, com orgulho, sua força e resistência. “Ainda não!”, ele dizia
à morte. Mas a morte não desiste... Dá seu vôo rasante e cruel,
circula como um urubu em busca de carniça e um dia, faz seu pouso
fatal.
Como
último teste, meu avô foi tomado por um câncer linfático que lhe
tirou o braço e parte do omoplata direito, que o mutilou e lhe tomou um pouquinho a alegria de viver. Mesmo assim, ele tentou, até o final libertar-se
da gaiola em que a vida lhe colocou. Mas como um passarinho sem asas
pode ser feliz? Como um passarinho que sempre bateu suas asas com
tanta independência e vivacidade pode viver enjaulado? Como
continuar colocando suas filhas debaixo das asas quando agora só
havia uma?
Eu
olhava os curiós pela janela... Há muito não os via cantar. Certo
dia, eles não estavam mais lá. “Vô, o senhor soltou os
passarinhos, finalmente?”, perguntei. “Não, estão com meu
irmão. Seu avô não consegue mais cuidar deles...”, suspirou
triste. Eu me pergunto por que ele nunca os soltou... Por que
apegou-se tanto a eles ali, presos. E o via exatamente como os
curiós: naquele quarto, naquela poltrona, dependente de uma cadeira
de rodas, cansado, aparentando muito mais que seus 79 anos. Sua
respiração era um pio fino.
Meu
passarinho sem asas se foi. O vôo eterno. E eu sinto muita saudade
de sua risada, suas histórias, seu jeito turrão, seu chevete que me
levava ao colégio, sua unha cutucando minha cabeça, sua voz me
chamando de 'pixuxuca', suas bermudas surradas, seu velho pijama,
suas invenções, sua xícara favorita, sua indignação com meus
atrasos, seu braço esquerdo me carregando até o altar dias antes de
perder o outro. Sinto saudade de meu pai. Mas ao mesmo tempo,
sinto-me estranhamente feliz porque meu passarinho pode voar
novamente. Imagino-o agora em liberdade, alto na imensidão de
um lugar infinito, onde ninguém poderá aprisioná-lo, onde o mundo
é pequeno para as suas aventuras, onde tudo o que ele quiser é
possível, um lugar azul, azulzinho, onde suas asas são tão imensas
que podem aninhar e proteger a todos os que ama, num abraço para
caber suas filhas, seu filhos, seus netos, sua filha-neta e ainda os
cachorros. Está livre, no céu, onde pertecem todos os pássaros. E
cada vez que sentir saudade de casa, voará e pousará baixinho em
minha janela para me acordar com seu canto de amor. Sofrimentos, eles
passarão, meu avô, passarinho.


9 comentários:
Nossa Luly!! Que lindo! Não pude deixar de ler e me emocionar! Que a paz de Deus esteja com vc e sua família pq agora certamente a mesma o acompanha. Rafa Raiol
Parabéns, Luly! O sentimento que se traja é o retalho, também de plebéia, que se sente e expõe ao mundo. Me emocionou bastante o texto. Esse amor, diria fora de moda, infelizmente, orgulha seu vovô e o impulsiona mais ao vôo livre! Grande beijo :)
Luly, admiro ainda mais você flor!
Achei linda a expressão do seu sentimento, e estou certa de que trazê-la à tona lhe trará também alento ! Um beijo muito doce no seu coração ! (DANI - SJCampos/SP)
Emocionante, muito!
Nosssa Luanda, meus olhos ficaram cheios de lágrimas e meu coração ficou apertado. Que lindo! A mais bela de todas as declarações de amor que já li na vida. Você é maravilhosa! Que Deus conforte seu pranto.Um bjo no seu coração, Fernandinha.
:(
Eu não conheço vc...fui ytazida aki por acaso, clicando de blog em blog, procurando leitura e moda para pessoas de carne e osso, cujo cartão e salário têm sim um limite, mas o interesse por assuntos ligados à moda não!
Pois bem... por tudo isso, vez em quando passo por aqui e adoro ver você reinventando seu guardaroupa todos os dias. Mas essa introdução todinha é somente para me apresentar e dizer a você que apesar de o propósito do blog não ser esse tipo de exposição, ao dividir com os seus leitores esse tipo de sentimento, você nos eleva a um status mais interessante... o status de amigos, de confidentes e principalmente, de admiradores!
Seu texto foi muito emocionante, escrevo isso aqui com lágrimas nos olhos... mais emocionante que o texto só mesmo seu amor pelo Vô, tão apaixonada e ao mesmo tempo tão lúcida quanto aos defeitos e ao sentido dessa passagem para ele.
Fique bem Luly e continue nos brindando com suas palavras lindamente colocadas, em momentos mais felizes, é claro.
Beijo
Obrigada a todos os comentários! Tenho certeza que o tempo ameniza a dor, a saudade e ainda bem que temos as boas lembranças como companhia para sempre.
Beijos em todas
Que lindo.. lembrei muito do meu avô lendo isso! =')
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